DOSTOIÉVSKI E OS ANJOS CAÍDOS

Dostoiévski é profético. Soube há um tempo que uma universidade italiana cancelou (e descancelou) um curso dedicado ao autor. Seu crime? Ser russo. Reconheço que não há nada de novo nisso (é até previsível, na verdade). Muitos autores foram “cancelados” em tempo de guerra, e não foram poucos os livros que arderam pela ignorância. Mas querer cancelar Dostoiévski é um grande contrassenso. É impossível tentar entender as tragédias do século XX sem passar por ele.


Fiódor Dostoiévski não é um autor comum. Foi com a obra “Os Demônios”, menos conhecida que “Crime e Castigo” e “Irmãos Karamazov”, que o autor antecipou em 50 anos o terror do totalitarismo coletivista.


A história se passa em uma vila russa sem nome. Nessa cidade provinciana, um grupo de jovens com as mentes envenenadas pelo niilismo cometem os mais diversos pecados em nome “da causa comum”. O que era essa causa? A promessa de um paraíso terrestre sob a luz fosca do autoritarismo. Era a ideia de que um homem vale menos que a sua ideologia.


A obra não é simples. Desde a publicação há quem a tenha tentado censurar. Um dos primeiros cancelamentos – mas este a ferro e fogo - aconteceu no período stalinista. Não é à toa que uma das obras mais “perigosas” de Dostoiévski fosse a mais antirrevolucionária. O que aprendemos desde então? Irônico como insistimos em ignorar passado – o Século XX nos espreita pela fechadura.


Mesmo que muitos de nossos “anjos caídos” achem heroico boicotar o estrogonofe e censurar autores, digo em alto e bom som: temos muito a aprender com os (autores) russos. Talvez eles sejam os únicos que consigam explicar a barbárie escatológica de nossa espécie.


Com certeza, nos falta um pouco de Dostoiévski para entender esse mundo “complexo” e assombrado por demônios.


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